Dica de filme: Luta por Justiça
- Enzo Pellegrino

- há 14 horas
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Nossa indicação da vez está ainda nas telonas e conta a história verídica de Bryan Stevenson (Michael B. Jordan), um jovem negro que, logo após se formar em direito pela conceituadíssima Universidade de Harvard, decide abrir mão da busca por fama e dinheiro para atuar numa área extremamente delicada: a defesa gratuita de condenados à pena de morte no Alabama — região historicamente contaminada por um racismo explícito e agressivo —, pessoas abandonadas pelo sistema, perseguidas pela cor de sua pele e que nunca tiveram direito a uma assistência jurídica justa.
Para ajudá-lo no projeto chamado “Equal Justice Initiative” (Iniciativa pela Justiça Igualitária), Bryan contou com o apoio de Eva Ansley (Brie Larson), a outra fundadora. Mas logo de cara, entre tantos casos de condenados sem um julgamento justo, destaca-se o caso de Walter “Johnny D.” McMillian, condenado ao corredor da morte pelo assassinato de uma jovem de apenas 18 anos, crime que jura não ter cometido.
Ao analisar o caso, o advogado depara-se com incontáveis ilegalidades, conspirações e manipulações que levaram à condenação sem provas, o que dá início a uma dura batalha para tentar salvar sua vida.
Embora a história tenha retratado outro país e outra época (passaram-se décadas), infelizmente não tivemos muitas mudanças nesse cenário torpe racista que incrimina inocentes pela cor de sua pele e sem oferecimento de uma defesa boa e justa, ainda que gratuita. O sistema todo é destinado a encontrar um culpado e os defensores, no mais das vezes, fazem parte dele com um trabalho desinteressado, parcial e inconsequente.
Discorda? Basta perguntar, em nossa cidade, a diferença que os mais necessitados vêem quando comparado o trabalho de um advogado da assistência judiciária com o de um particular. Basta ver o número de negros acusados, julgados e condenados, muitas vezes sem sequer conversar com seu defensor, que não se dá ao trabalho de procurá-lo na cela do fórum para não atrapalhar seu precioso café no ar na sala refrigerada da OAB.
Sequer podemos imaginar a sensação de nascer e crescer com medo, apenas aguardando o dia em que será nossa vez de sofrer acusações injustas e tê-las justificadas pela injustificável evidência da melanina.
“Ain, posso imaginar sim, tá?” Bom, se você não nasceu negro e pobre, sinto informar, mas não pode.
É justamente por isso que o filme se mostra tão forte e atual, pois mostra o abandono do sistema com o negro pobre, o desespero das famílias e, por outro lado, a importância que uma única pessoa pode ter incontáveis outras apenas por lhes conceder um único presente, aparentemente simples, mas que tem o poder de mudar vidas: esperança. Foi esperança o que Bryan Stevenson deu aos presos e às suas famílias em meio ao desespero em face da morte iminente, e o fez por meio de um trabalho interessado, justo e dedicado, algo que deveria estar presente em qualquer defesa jurídica.
Nas palavras do próprio protagonista da história: “Eu vim da faculdade de Direito com grandes ideias em minha mente sobre como mudar o mundo, mas o Sr. McMillian me fez perceber que não podemos mudar o mundo apenas com ideias em nossas mentes. Precisamos de convicção em nossos corações. Este homem me ensinou como me manter esperançoso, porque agora sei que a falta de esperança é inimiga da justiça. A esperança permite seguir adiante, mesmo com a verdade distorcida pelas pessoas no poder. Ela nos permite continuar de pé quando nos mandam nos sentar, e a falar quando mandam nos calar. Através desse trabalho aprendi que cada um de nós é mais do que a pior coisa que já fizemos, e que o oposto da pobreza não é a riqueza, o oposto da pobreza é a justiça. Que o caráter da nossa nação não está refletido em como nós tratamos os ricos e privilegiados, mas em como tratamos os pobres, os desfavorecidos e condenados. Nosso sistema tem tirado mais desse inocente homem do que tem poder para devolvê-lo, mas acredito que se cada um de nós puder seguir esse exemplo, nós podemos mudar o mundo para melhor. Se pudermos olhar para nós mesmos de perto e honestamente, acredito que enxergaremos que todos precisamos de justiça. Todos precisamos de piedade. E, talvez, todos precisamos de uma graça não merecida.”




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