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  • Foto do escritor: Enzo Pellegrino
    Enzo Pellegrino
  • há 9 horas
  • 2 min de leitura

Infelizmente, atual demais



Ano: 1960


Sinopse: Nos anos de 1920, Bertram Cates (Dick York), um professor de biologia do Tennessee, é levado a julgamento por violar a lei conhecida como Butler Act, que proibia o ensino do evolucionismo em detrimento do criacionismo em escolas públicas. Por tratar-se de tema relevante, o processo atrai atenção nacional, principalmente pela escolha de ilustres juristas para atuar na casa: o advogado de defesa é o consagrado Henry Drummond (Spencer Tracy) e o promotor é Matthew Harrison Brady (Fredric March), conhecidos nacionalmente por suas linhas de pensamento diametralmente opostas.

O caso retratado no filme é inspirado em um caso real, o chamado “Processo do Macaco de Scopes”, em alusão à Teoria da Evolução de Charles Darwin, e contrasta o progresso do saber humano com o conservadorismo fanático-religioso, especialmente nas pequenas cidades do interior, como é o caso da pequena Hillsboro. Obs.: os nomes dos personagens e da cidade (na vida real, o julgamento ocorreu em Dayton) foram alterados na trama.


Um professor preso por doutrinar crianças sobre teorias evolucionistas, acusado de profanar os textos bíblicos. Autoridades despojando-se de suas responsabilidades legais para entrar no insensato jogo de medir crenças, colocando-as acima da ciência numa verdadeira involução (negam que do macaco veio o homem, mas se esforçam brutalmente para que, do homem, se possa voltar ao macaco). Um promotor acusando com base em crenças religiosas, e um advogado são, tido como “agente do demônio” por acreditar na ciência. Soa familiar?


Inherit the wind (“O vento será tua herança”) é uma obra-prima de 1960, mas não seria surpresa se seus atores estivessem, in loco, assistindo Lady Gaga e sua pedra filosofal a cantar com Bradley Cooper na recente cerimônia do Oscar. 59 anos depois, o filme, que não prevê o futuro ou nada do gênero, é, infelizmente, atual. Será tão difícil notar o retrocesso? Penso que não, mas me indago: daqui a 59 anos, notarão os erros do agora?


Mais do que a prisão em si, está em julgamento a liberdade de pensamento, de expressão, de crença e de cátedra, o que faz do filme um dos melhores e mais famosos filmes de tribunal já produzidos.


Juridicamente, vislumbramos o processo de escolha dos jurados entre acusação e defesa, sua possibilidade de protestar perante o juiz, a necessidade de se ater aos fatos relevantes à causa e como esse julgamento de relevância pode refletir aspectos autônomos de crença e posicionamento pessoais do julgador, ferindo brutalmente a desejada imparcialidade real e efetiva.


O filme ainda nos deixa a lição de que é possível a crença religiosa sem fanatismo, com respeito à ciência, ao que não entendemos e até mesmo ao que não aceitamos.


Preceitos religiosos, que deveriam buscar sempre o bem, jamais deveriam ser utilizados para qualquer tipo de discurso de ódio, intolerância ou segregação, pois essa utilização consiste em nada mais, nada menos, que usar um dogma para ferir o próprio dogma.


Não faz qualquer sentido, não há lógica.


Prendem meu corpo, mas minha mente permanece livre.” Que Deus nos proteja… de nós mesmos.


  • Foto do escritor: Enzo Pellegrino
    Enzo Pellegrino
  • há 9 horas
  • 2 min de leitura

Noam Chomsky, questões familiares, muito amor e Guns N' Roses!



Ano de lançamento: 2016

Sinopse: Ben (Viggo Mortensen) e sua esposa têm seis filhos e decidem criá-los de uma forma excêntrica, em meio à floresta, distante da civilização e de todos os padrões sociais comumente impostos: criá-los em desacordo com o sistema. Diferentemente das outras crianças, os filhos de Ben aprendem desde cedo a caçar, lutar, praticar exercícios pesados e tudo o mais que se mostra necessário para sua sobrevivência. Quanto à educação, ao invés de seguirem o roteiro de aulas normais do ensino fundamental e médio, lêem obras clássicas, debatem e aprendem de forma muito mais avançada do que as crianças de sua idade. Evolução, autoconhecimento e autossuficiência. Tudo caminha bem até que uma tragédia os mobiliza e os faz irem de encontro à civilização, confrontando modos de viver e pensar totalmente distintos.

Este que vos escreve (instagram: @enzopell) tem que admitir que ama esse filme (de paixão!). Com atuações impecáveis e uma história realmente bela, a obra nos faz pensar, refletir e contestar vários aspectos de nossas próprias vidas e daqueles que nos cercam, especialmente quanto ao tratamento que destinamos às crianças, aos delírios de consumo e ao que se mostra realmente essencial para que possamos viver bem e felizes.


Mostra, ainda, a incrível aventura de ser pai.


A família central da história vive sob os preceitos de Noam Chomsky (anarquismo/socialismo libertário), e quem não o conhece terá uma boa oportunidade para mergulhar em suas pesquisas após assistir ao filme, que, como bem definido pela página Adoro Cinema, “é uma mistura de Pequena Miss Sunshine com Na Natureza Selvagem.” (dois filmes excelentes, vale dizer).


O filme também cria o interessante debate sobre a liberdade e os limites no exercício do poder familiar. Até que ponto os pais podem definir a forma de criar seus filhos? Não criá-los como a maioria significa, necessariamente, que estão sendo prejudicados? Essa dúvida se mostra latente na obra, que aborda a questão da perda desse poder e da modificação de guarda quando outros membros da família demonstram maior capacidade para criar e proteger as crianças, o que, de acordo com o ECA, seria o princípio do melhor interesse do menor.


Noam Chomsky, questões familiares, muito amor e Guns N' Roses na trilha sonora: eis uma receita infalível.

Ah, já ia me esquecendo: “Power to the people, stick it to the man!


  • Foto do escritor: Enzo Pellegrino
    Enzo Pellegrino
  • há 9 horas
  • 2 min de leitura

De atuações de advogados à lei de Talião. Confira a análise!



Ano de lançamento: 2017

Globo de ouro: melhor filme estrangeiro.


Sinopse: A história gira em torno de uma família residente na Alemanha. Uma vez livre após cumprir pena por tráfico de drogas, o turco Nuri Sekerci (Numan Acar) é a imagem da ressocialização ao levar uma vida tranquila ao lado da esposa Katja Sekerci (Diane Kruger) e do filho Rocco, ainda uma criança. Tudo muda, no entanto, quando Nuri e Rocco tornam-se vítimas fatais de um atentado a bomba que ocorre em frente ao escritório onde ele trabalhava. Diante da perda de sua família, Katja participa das investigações e não mede esforços para punir os responsáveis, seja por meio da justiça ou buscando fazê-la com as próprias mãos.

Embora seja um filme controverso, “In the fade” traz à tona a questão do extremismo nazista na Alemanha, em particular com os atentados praticados pelo grupo NSU, em 2011, mas com uma particularidade: tem uma alemã como vítima.

A abordagem nos leva a enfrentar questões pessoais (como reagiríamos?) e sociopolíticas (o que leva alguém a um ato tão extremo? Em nome de quem/quê?), mas desagua numa questão muito latente em nossa sociedade: a validação ou não da Lei de Talião.


Com uma atuação impecável, a qual lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes de 2017, Diane Kruger nos apresenta o sistema jurídico/judiciário alemão, mostrando desde a fase inquisitiva de um processo até o seu julgamento final (citando, inclusive, a parte recursal).


Também podemos perceber diversas semelhanças com o nosso ordenamento jurídico: o enquadramento do usuário de drogas (art. 28 da Lei 11.343/06), os princípios da presunção de inocência e do in dubio pro reo, a inquirição de testemunhas, a realização de perícia técnica forense, testes toxicológicos, capacidade do testemunho, contradita de testemunhas, entre outros. Não se perde a oportunidade de presenciar, também, a atuação dos advogados, da acusação e dos julgadores conforme as leis e procedimentos alemães, bem como a dificuldade, para as vítimas, de se contentarem com a aplicação da lei quando ela soa injusta ou insuficiente.


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