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  • Foto do escritor: Enzo Pellegrino
    Enzo Pellegrino
  • há 14 horas
  • 3 min de leitura

Nossa indicação da vez está ainda nas telonas e conta a história verídica de Bryan Stevenson (Michael B. Jordan), um jovem negro que, logo após se formar em direito pela conceituadíssima Universidade de Harvard, decide abrir mão da busca por fama e dinheiro para atuar numa área extremamente delicada: a defesa gratuita de condenados à pena de morte no Alabama — região historicamente contaminada por um racismo explícito e agressivo —, pessoas abandonadas pelo sistema, perseguidas pela cor de sua pele e que nunca tiveram direito a uma assistência jurídica justa.


Para ajudá-lo no projeto chamado “Equal Justice Initiative” (Iniciativa pela Justiça Igualitária), Bryan contou com o apoio de Eva Ansley (Brie Larson), a outra fundadora. Mas logo de cara, entre tantos casos de condenados sem um julgamento justo, destaca-se o caso de Walter “Johnny D.” McMillian, condenado ao corredor da morte pelo assassinato de uma jovem de apenas 18 anos, crime que jura não ter cometido.


Ao analisar o caso, o advogado depara-se com incontáveis ilegalidades, conspirações e manipulações que levaram à condenação sem provas, o que dá início a uma dura batalha para tentar salvar sua vida.


Embora a história tenha retratado outro país e outra época (passaram-se décadas), infelizmente não tivemos muitas mudanças nesse cenário torpe racista que incrimina inocentes pela cor de sua pele e sem oferecimento de uma defesa boa e justa, ainda que gratuita. O sistema todo é destinado a encontrar um culpado e os defensores, no mais das vezes, fazem parte dele com um trabalho desinteressado, parcial e inconsequente.


Discorda? Basta perguntar, em nossa cidade, a diferença que os mais necessitados vêem quando comparado o trabalho de um advogado da assistência judiciária com o de um particular. Basta ver o número de negros acusados, julgados e condenados, muitas vezes sem sequer conversar com seu defensor, que não se dá ao trabalho de procurá-lo na cela do fórum para não atrapalhar seu precioso café no ar na sala refrigerada da OAB.


Sequer podemos imaginar a sensação de nascer e crescer com medo, apenas aguardando o dia em que será nossa vez de sofrer acusações injustas e tê-las justificadas pela injustificável evidência da melanina.


“Ain, posso imaginar sim, tá?” Bom, se você não nasceu negro e pobre, sinto informar, mas não pode.


É justamente por isso que o filme se mostra tão forte e atual, pois mostra o abandono do sistema com o negro pobre, o desespero das famílias e, por outro lado, a importância que uma única pessoa pode ter incontáveis outras apenas por lhes conceder um único presente, aparentemente simples, mas que tem o poder de mudar vidas: esperança. Foi esperança o que Bryan Stevenson deu aos presos e às suas famílias em meio ao desespero em face da morte iminente, e o fez por meio de um trabalho interessado, justo e dedicado, algo que deveria estar presente em qualquer defesa jurídica.


Nas palavras do próprio protagonista da história: “Eu vim da faculdade de Direito com grandes ideias em minha mente sobre como mudar o mundo, mas o Sr. McMillian me fez perceber que não podemos mudar o mundo apenas com ideias em nossas mentes. Precisamos de convicção em nossos corações. Este homem me ensinou como me manter esperançoso, porque agora sei que a falta de esperança é inimiga da justiça. A esperança permite seguir adiante, mesmo com a verdade distorcida pelas pessoas no poder. Ela nos permite continuar de pé quando nos mandam nos sentar, e a falar quando mandam nos calar. Através desse trabalho aprendi que cada um de nós é mais do que a pior coisa que já fizemos, e que o oposto da pobreza não é a riqueza, o oposto da pobreza é a justiça. Que o caráter da nossa nação não está refletido em como nós tratamos os ricos e privilegiados, mas em como tratamos os pobres, os desfavorecidos e condenados. Nosso sistema tem tirado mais desse inocente homem do que tem poder para devolvê-lo, mas acredito que se cada um de nós puder seguir esse exemplo, nós podemos mudar o mundo para melhor. Se pudermos olhar para nós mesmos de perto e honestamente, acredito que enxergaremos que todos precisamos de justiça. Todos precisamos de piedade. E, talvez, todos precisamos de uma graça não merecida.”


  • Foto do escritor: Enzo Pellegrino
    Enzo Pellegrino
  • há 15 horas
  • 2 min de leitura

Filme: Parasita

Ano: 2019


O badalado filme sul-coreano, dirigido por Bong Joon-Ho, merece todos os elogios e não à toa foi indicado a inúmeras premiações, entre elas o Oscar 2020 que será apresentado em breve.


A obra conta como a família Kim, da camada social mais pobre da Coréia do Sul, aos poucos se aloja como um verdadeiro parasita na família Park, do extremo oposto social. Enquanto a primeira família batalha para sobreviver em uma casa que fica quase que integralmente no subsolo, imersa na famosa pindaíba, a segunda vive no que chamamos popularmente de “bolha”: mãe dona de casa, motorista particular, governanta, aulas particulares para os filhos, etc.


Sem entrar em mais detalhes porque entendo ser um filme para assistir “de peito aberto”,  indicamos não por uma análise jurídica a ser feita, como de costume. Dessa vez, a indicação se justifica pela intensidade da obra ao retratar a desigualdade social que assola o mundo (o retrato brasileiro não é diferente do que o filme mostra na Coréia). Em nossa sociedade, a exclusão social atinge níveis tão grotescos que o sonho de muitos não é ter muito, mas ter o mínimo. A possibilidade de ser explorado (como empregado) já é algo a se comemorar.


O mais interessante é que a história em momento algum tenta colocar ricos como vilões ou pobres como malandros, mas apenas mostra a realidade tão distinta das camadas sociais e como, dentro de cada um dos universos, seus membros podem ter dificuldade para enxergar seus iguais. Basta uma leve ascensão social ou financeira para ser criada a sensação de rompimento, de escalada social, quando na verdade pertencemos a uma maioria que é muito mais igual do que pensamos ou percebemos (poucos são os realmente privilegiados).


Nesse contexto, a indiferença social se sustenta de forma velada até o seu limite, mas, quando surge uma verdadeira luta de classes, ela termina sempre da mesma forma. É assim em qualquer lugar, especialmente em países como a Coreia e o Brasil, que têm tanto em comum: desigualdade social, indiferença, subordinação aos EUA e muito mais. “Que metafórico” (piada interna para quem já assistiu 😉).


  • Foto do escritor: Enzo Pellegrino
    Enzo Pellegrino
  • há 15 horas
  • 2 min de leitura

História de um casamento

2019

Tem no Netflix!

Quanto tempo duram intactas as famílias que vivem como nas propagandas de margarina?


Charlie (Adam Driver) é um conceituado diretor de teatro que vive uma vida aparentemente perfeita de amor, carinho, respeito e admiração com sua esposa e atriz Nicole (Scarlett Johansson) e o filho Henry (Azhy Robertson).


Mas como nem tudo é como parece e nada nesse mundo é eterno (especialmente as pessoas e relacionamentos, que estão sempre em constante mudança), as ilusões vão desaparecendo e o casal entra em crise. Mas bora falar pouco sobre a história em si para evitar spoilers, né?


Embora nossas leis sejam diferentes das que envolvem a trama, os problemas que surgem com toda separação são os mesmos: sofrimento, tentativas de fazer dar certo e, diante do impasse quanto ao seu Enzo, digo, filho, a briga pela guarda.


É justamente ai que o filme vale muito para advogados e demais apaixonados por Direto (de Família, no caso). Os reflexos que a separação tem no filho (que culpa um dos pais e quer proteger o outro), a briga entre pai e mãe pela convivência com a criança (com definição de horários para visita), fixação de alimentos, partilha de bens... enfim, todos os problemas se assemelham e são muito bem demonstrados no filme, assim como o objetivo maior de tudo: a luta para garantir o melhor interesse da criança (princípio primordial do nosso ECA e que também vigora nos EUA).


Também vale a pena conferir como a atuação dos advogados pode ser facilitadora quando se dá se forma humana e razoável, e como pode atrapalhar as relações de afeto quando outros interesses são colocados em primeiro lugar, com prevalência da falta de confiança em detrimento dos arranjos que existem e são respeitados pelo casal.


Baita filme: fofin, dramático e com muito do mundo do Direito :)


E fica a pergunta: se o casamento termina, o amor tem necessariamente que morrer com ele?


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